São Vicente e os riscos de uma governação em rutura

A decisão do presidente da Câmara Municipal de São Vicente, eleito pelo Chega, de retirar os pelouros aos vereadores do mesmo partido expõe uma crise política grave no executivo municipal e levanta sérias preocupações quanto à estabilidade da governação local.

Após desentendimentos públicos entre eleitos do mesmo partido, fica evidente a incapacidade do Chega em manter entendimento interno e garantir um funcionamento normal de um executivo autárquico. Esta situação demonstra falta de preparação política e ausência de condições para assegurar uma governação responsável em prol da população de São Vicente.

Importa também sublinhar que estes episódios não são casos isolados. Pelo país têm-se sucedido momentos de discórdia interna no Chega que frequentemente culminam no afastamento de eleitos ou na rutura entre responsáveis políticos do próprio partido. Na Madeira, recorde-se que o Chega já perdeu os vereadores que tinha na Câmara Municipal do Funchal, num fenómeno que revela como, em vários casos, este partido se tem tornado um veículo de carreirismo político, onde alguns procuram alcançar cargos públicos para posteriormente abandonarem o partido ou mudarem de posição política.

É também importante lembrar que o Chega prometeu à população de São Vicente que seria uma força capaz de liderar o concelho e de colocar os interesses das pessoas acima de tudo o resto. A crise que agora se vive demonstra precisamente o contrário. As intrigas internas e os conflitos entre eleitos mostram que o partido não consegue cumprir aquilo que prometeu à população.

Esta situação é igualmente o resultado de campanhas políticas vazias de propostas e de conteúdo. A falta de preparação para governar, aliada à estratégia constante de descredibilização da política promovida pelo Chega, acaba por produzir exatamente o cenário que agora se verifica, conflitos internos e instabilidade política.

Esta realidade encontra também paralelo na instabilidade política que tem marcado a governação regional ao longo dos anos por responsabilidade do PSD na Região Autónoma da Madeira. A sucessão de crises políticas, impasses governativos e momentos de instabilidade que têm marcado a vida política regional demonstram como modelos políticos baseados na concentração de poder e na ausência de escrutínio acabam frequentemente por gerar conflitos e bloqueios institucionais.

Importa ainda salientar que a possibilidade de eleições intercalares, ou seja, eleições antecipadas no plano autárquico, é uma situação relativamente rara na Região Autónoma da Madeira. Quando tal acontece, é normalmente consequência de falhas graves no funcionamento dos executivos locais.

Se esse cenário vier a verificar-se em São Vicente, será mais uma prova da incapacidade do Chega para assegurar estabilidade política mesmo num executivo municipal. Um partido que não consegue garantir estabilidade a nível local dificilmente poderá ambicionar responsabilidades governativas a nível regional ou nacional.

A população de São Vicente merece estabilidade, seriedade e trabalho responsável em defesa do desenvolvimento do concelho. O que se está a assistir atualmente é precisamente o contrário.