Eles que comam golfe!
Há uns tempos fomos pouco surpreendidos com declarações de Miguel de Sousa, um empresário que também já foi governante do PSD na Madeira, em direto na RTP Madeira, a dizer que é importante que a Madeira invista em mais campos de golfe, não só na ilha da Madeira mas também no Porto Santo. Para que os leitores tenham algum contexto, toda esta discussão em volta de mais campos de golfe surge numa altura em que o Governo Regional da Madeira já gastou 50 milhões de euros de dinheiros públicos, do Orçamento da Região e também de fundos do PRR, para construir um campo de golfe na Ponta do Pargo, que será o terceiro campo de golfe na ilha da Madeira e o quarto na Região Autónoma.
Falou-se ainda sobre a possibilidade de se construir mais um campo de golfe na Madeira, no Faial, em Santana. Para minha felicidade, gerou-se um certo burburinho e rapidamente se percebeu que havia muitos madeirenses contra este tipo de investimentos. Uns porque acham que é um atentado ambiental e outros porque acham que gastar o dinheiro da Região neste tipo de projetos não faz sentido num momento em que a Madeira tem problemas muito maiores, no que toca à crise da habitação, à saúde, etc.
Dou-vos um exemplo que não me canso de repetir: no Funchal, um investimento público permitiu que, com 3 milhões de euros, mais coisa menos coisa, se construíssem 33 apartamentos. Agora, fazendo as contas, com os 50 milhões que já foram gastos para construir o campo de golfe na Ponta do Pargo, quantas casas é que poderíamos construir e entregar à população?
O problema do Governo da Madeira é estar completamente alheio àquelas que são as verdadeiras maleitas da sua população. Querem dizer aos madeirenses, ou querem fazê-los acreditar, que os campos de golfe são um investimento que vai aumentar os salários na Madeira, que vai dinamizar a economia local e que vai resolver algumas das desigualdades na Região Autónoma da Madeira. Pois eu pergunto: quantos madeirenses podem dormir descansados sabendo que têm uma renda que podem pagar por causa de um campo de golfe? Quantos madeirenses podem dizer que vão gastar menos dinheiro no supermercado ao fim do mês porque se construiu um sítio onde alguns ricos podem dar tacadas na Ponta do Pargo? Quantos madeirenses podem assegurar que não vão ficar em listas de espera no Serviço Regional de Saúde porque se construiu outro "green"?
Há, à direita, quem acuse de demagogia ou até mesmo de populismo, mas a verdade é que estes 50 milhões de euros que estão a ser gastos neste campo de golfe, e os tantos outros milhões que ainda vão ser gastos em projetos que estão por vir, são milhões que poderiam ser utilizados para construir casas, que poderiam ser utilizados para contratar mais profissionais de saúde, que poderiam ser atribuídos a prioridades reais. Mas o Governo prefere construir campos de golfe que serão futuramente explorados por entidades privadas, fazendo com que o lucro seja também ele privado, apesar de o investimento ser público.
Quando acharem que o Luís trabalha mal, venham à Madeira ver o trabalho de Miguel Albuquerque. Na Madeira e no Porto Santo, o Governo não esconde que governa para os interesses privados com dinheiros públicos.
E acredito também que é por isto que a esquerda é tão necessária na Madeira. Apesar de termos dificuldade em chegar às pessoas, sabemos que a alternativa a este rumo não pode ser a continuação deste capitalismo selvagem, que olha para a Madeira como uma fonte de lucro e para a população como mão de obra escrava para a elite explorar. A única alternativa credível e capaz de fazer frente a estas políticas neoliberais é a esquerda e o socialismo. Mas até lá, Albuquerque diz: eles que comam golfe!
(publicado originalmente em esquerda.net)