O campo como trincheira política: futebol, poder e a farsa da neutralidade
Sobre as polémicas deste mundial, há quem ache que os mesmos vêm de uma politização do futebol e da sua figura máxima, a FIFA. E aí está o erro, o futebol, e por consequência a FIFA, sempre foram objetos políticos, e o próprio facto de tal entidade proibir e desincentivar atos e mensagens políticas em estádios, apenas mostra o quão políticos (e de que lado da política) eles são! Infelizmente tal só ficou escancarado neste mundial, onde seleções nacionais são proibidas de pernoitar nos Estado Unidos da América (um dos países sede), onde tantas outras seleções, ao sair do avião, são tratadas como um grupo de criminosos, onde há diversos casos de vistos negados, como de um árbitro e até adeptos como o icónico Michel Nkuka Mboladinga da República Democrática do Congo, que personifica Patrice Lumumba, antiga figura revolucionária do país que teve uma negação sistemática e não explicada de vistos. No entanto, nada supera o telefonema que Donald Trump fez a Gianni Infantino, presidente da FIFA, para pedir a reversão de um cartão vermelho ao avançado Folarin Balogun, o que escancarou para o mundo algo que muitos já sabiam, que a entidade máxima do futebol é também uma instituição política, claro, mas acima de tudo, é uma instituição corrupta, que ficará marcada para o futuro como estando sempre do lado errado da História.
E esta cumplicidade da política e do futebol, tal como referi, não começou neste mundial, é algo histórico, sistemático, indivisível, é algo que foi usado por todos os lados e ideologias para fazer passar a sua retórica, afinal, o futebol, tal qual a política, é um movimento de massas, cheio de holofotes e atenção, um palco tornado trincheira política. Mussolini por exemplo usou-o como como uma ferramenta fundamental de propaganda fascista, onde no Mundial de 34, organizado pela Itália fascista, concebido deliberadamente como montra de força nacional, Mussolini instrumentalizou a seleção para provar ao mundo a superioridade do "homem novo" fascista, coincidência ou não (e com relatos historicamente documentados de pressão sobre árbitros e adversários e de um ambiente de intimidação nos bastidores do torneio) os Azzurri conquistaram aquele mundial! E a propaganda não acabava por aí, tal como em outros países, tipo a Espanha fascista, houveram casos de suporte estatal a certas equipas, àquelas mais próximas e coniventes ao regime. Na Espanha, o Real Madrid (cujo estádio, inaugurado sob a bênção do regime, homenageia um combatente franquista) e o Atlético Madrid, já na Itália, diversas equipas como a AS Roma e o Bolonha também receberam apoio e novos estádios, que mais do que palcos da bola, eram celebrações do fascismo. Era algo que Gramsci, comunista italiano, preso durante a ditadura, já havia dito, não é preciso reprimir pela força bruta quando se pode fabricar consenso espontâneo através do orgulho coletivo, da identificação emocional das massas com a vitória "da pátria".
Contudo o futebol ser político não descai apenas para um lado do espetro, podemos olhar por exemplo à União Soviética, que à semelhança de outras experiências socialistas via o desporto rei como bem coletivo massificado, acessível à classe trabalhadora e integrado na "cultura física" do socialismo, e não como mercadoria vendida a quem pudesse pagar bilhete, como acontece hoje em dia. Equipas ligadas a sindicatos e trabalhadores começaram então a surgir e desenvolver-se, todavia, também equipas diretamente ligadas às forças armadas e à polícia, usadas como extensões diretas do aparelho de Estado. Ainda assim o futebol soviético teve grandes resultados, dentro de campo, onde ganhou um Europeu e duas olimpíadas, tendo diversos resultados incríveis ao longo dos anos (a nível de seleção), mas principalmente fora de campo, onde mostrou que o futebol não precisa ser excludente e fortemente capitalizado e privatizado para funcionar e existir sucesso! Tal ideia foi adaptada por outros países assim ideologicamente alinhados, alguns decidiram não profissionalizar o desporto, passando o mesmo a ser competido apenas a nível amador, já outros deram um nível maior de autonomia às equipas, permitindo a profissionalização, tendo muitos destes países tido sucesso a nível internacional futebolisticamente, tanto a nível de seleções como de clubes, mostrando que um “futebol socialista” tal como o socialismo num geral, não é algo como receita de bolo, e não deve nem pode ser aplicado em todos os lugares á mesma maneira, é algo móvel e dinâmico, dependente das características do país e dos tempos históricos.
Mas nem só de influências do Estado vive a política do maior desporto da história, para além dos fatos e gravatas sempre houveram equipas, jogadores e adeptos politicamente ativos! Podemos olhar ao, talvez, maior exemplo de tal, a Democracia Corintiana! Em plena ditadura empresarial‑militar brasileira, um clube, o Sport Club Corinthians, realizou algo inédito e revolucionário, jogadores, comissão técnica e funcionários implantaram um sistema de autogestão em que cada decisão era votada coletivamente, eles tinham para si o slogan “Ganhar ou Perder, mas Sempre com Democracia”, e usavam do único método de comunicação com as massas que o governo não podia calar, o futebol, para passar esse mesmo slogan à população, participando inclusive de uma campanha para que houvessem eleições diretas no país. A emenda foi chumbada no Congresso e, tal como havia prometido, Sócrates, craque da equipa e seleção Brasileira, socialista de coração, abandonou o país em protesto, indo deslumbrar as vistas dos adeptos da Fiorentina, na Itália.
E este não é o único exemplo, podemos olhar por exemplo a clubes que ainda hoje lutam por pautas de justiça maior, um exemplo muito bom é o Palestino, equipa do… Chile?! Sim, fundado em 1920 na capital chilena por um grupo de emigrantes palestinianos, este clube compete hoje na primeira divisão da região, tendo uma grande base de adeptos, lutando e levantando a sua voz sempre pela causa Palestiniana, carregando as cores do país no emblema e uniforme, não deixando aquele povo ser esquecido, e agora, mais do que nunca, angariando fundos para mandar para quem mais precisa, tentando mitigar os efeitos do genocídio levado a cabo pelos Israelitas. Ainda no tema de defesa aos Palestinianos temos o Celtic F.C., maior vencedor no futebol Escocês (ainda que com forte identidade Irlandesa) e exemplar a nível cívico desde a sua fundação, surgindo como uma maneira de angariar fundos para alimentar crianças pobres da comunidade imigrante irlandesa e católica na cidade de Glasgow, desde aí cresceu, e hoje apoia as causas dos oprimidos, como da Palestina por exemplo, já não por parte da diretoria, mas sim pela Green Brigade, grupo de fãs do Celtic (defensores de uma República Socialista Irlandesa e da independência Escocesa), que ao contrário da diretoria atual, não olham ao clube pelo dinheiro, olham pela paixão e lutas historicamente defendidas, levando a espírito a essência da instituição, um projeto de defesa daqueles que são excluídos pela sociedade! O que levou esta parte dos adeptos a ter diversas situações de embate com a UEFA, entidade máxima do futebol Europeu, que punia o grupo por fazer “demonstrações políticas”, como levar a bandeira da Palestina para os estádios. Contudo, eles continuam a lutar por aquilo que acham justo.
E, tal como o Sócrates na democracia Corintiana, também hoje há jogadores que levam a peito e expressam as suas crenças políticas, tivemos recentemente a jovem superestrela Lamine Yamal a levar consigo uma bandeira da Palestina durante a comemoração do título espanhol do Barcelona ou Noussair Mazraoui do Bayern, que fez publicações em defesa da Palestina. Temos também Marcus Rashford que fez campanha pública (e bem-sucedida) para forçar o governo britânico de Boris Johnson a inverter a decisão de cortar refeições escolares gratuitas a crianças pobres durante as férias da pandemia! E por fim (não por fim de exemplos mas porque o texto já vai longo) temos ainda um jogador que cada vez mais tem se posicionado politicamente, Kylian Mbappé, que já se posicionou abertamente contra Marine Le Pen e o seu partido “Rassemblement National”, pedindo aos jovens o seu voto nas eleições que aí se aproximavam, recentemente voltou a fazer mais declarações públicas contra a extrema-direita, e conseguiu inclusive mudar a maneira como as publicidades dentro da seleção Francesa funcionavam, recusando-se a publicitar casas de apostas, sendo bastante vocal sobre tal! E ainda neste mundial, após o jogo contra o Paraguai, ao ter sido ofendido racialmente por uma deputada desse país, Mbappé não se calou e chamou-a de desprezível e racista, mostrando ao mundo a resposta adequada que se deve dar à extrema-direita.
E entretanto o texto já vai longo, tanto que o acabo e as quartas de final também já lá foram (bons jogos, mas nada de outro mundo), esperamos para ver se mais escândalos irão acontecer, mas política, essa, independentemente do resultado final, vai estar sempre lá, a cada apito, chute, e declaração, a cada ressentimento guardado por motivos de séculos passados, a cada símbolo de patriotismo e acusação da falta dele, em cada comentário sobre a nacionalidade dos jogadores, em cada demonstração proibida pela FIFA, em cada sorriso e lágrima, ela vai estar lá! Não por falarmos de seleções, mas porque ela está em tudo e todos, nós somos seres políticos, e como construção nossa, o futebol também o é! E tudo isto pode até ser apenas pão e circo, mas tendo em conta que a muitos falta pão, se entendermos que isto é apenas um circo e não a resolução de todos os nossos problemas enquanto sociedade, temos de admitir que é um muito bom circo, um dos mais acessíveis a qualquer pessoa no planeta, um circo que põe os holofotes em diferentes culturas e histórias, e que dá palco mundial aos opressores, claro, mas também aos oprimidos, e esses, esses são os que falam mais alto!