Conferências Paulo Martins

Há coincidências que merecem ser assinaladas. A 27 de junho de 1976 realizaram-se as primeiras eleições para a Assembleia Legislativa da Madeira. Nesse mesmo dia, Paulo Martins celebrava o seu 23.º aniversário e era eleito deputado pela então União Democrática Popular (UDP), iniciando um percurso parlamentar que o tornaria uma das figuras mais marcantes da construção da Autonomia Regional.

Exatamente 50 anos depois, a 27 de junho de 2026, cerca de meia centena de pessoas encheu uma sala no Funchal para assistir à primeira edição das Conferências Paulo Martins, promovidas pelo Bloco de Esquerda Madeira, partido de que Paulo Martins foi co-fundador, e pelo The Left, grupo político da Esquerda no Parlamento Europeu.

A coincidência não podia ser mais feliz. No mesmo ano em que se comemoram os 50 anos da Constituição da República Portuguesa e da Autonomia Regional, a iniciativa prestou homenagem a um homem que fez da política um serviço público e que, por exemplo, participou ativamente, em conjunto com deputados de outras forças políticas, na elaboração do primeiro Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma da Madeira e do primeiro Regimento da Assembleia Legislativa.

Mas as conferências não olharam apenas para o passado. Serviram sobretudo para refletir sobre o presente e o futuro da Autonomia. Henrique Sampaio, ex-deputado e antigo jornalista do “Comércio do Funchal”, jornal da oposição democrática contra a ditadura, alertou para o risco da captura da Autonomia por interesses económicos e políticos, defendendo que esta deve regressar ao seu verdadeiro propósito: servir a população. O antigo autarca, parlamentar e atual investigador, Bernardo Martins, recordou que sem o 25 de Abril não teria sido possível construir a Autonomia e defendeu o seu aprofundamento, através de reformas constitucionais e estatutárias que reforcem os direitos dos madeirenses. A histórica dirigente sindical e antiga deputada da UDP Guida Vieira evocou o percurso de Paulo Martins e lembrou que a Autonomia só faz sentido quando melhora a vida das pessoas, combate o centralismo e promove os direitos sociais. Já a eurodeputada Catarina Martins chamou a atenção para um desafio que ultrapassa as fronteiras da Região: as ameaças que as regiões ultraperiféricas enfrentam no atual debate sobre o orçamento da União Europeia. Alertou para o risco de uma crescente centralização das decisões em Bruxelas e para eventuais cortes nos fundos comunitários, lamentando a ausência de uma posição mais firme do Governo Regional na defesa dos interesses da Madeira.

As Conferências Paulo Martins nasceram, assim, com uma ambição que vai muito além da evocação de uma personalidade. Pretendem criar um espaço anual de reflexão, onde diferentes vozes possam pensar criticamente a Madeira, a sua Autonomia e os desafios do seu desenvolvimento.

Cinquenta anos depois das primeiras eleições regionais, ficou uma certeza: a melhor homenagem que se pode prestar aos fundadores da Autonomia não é transformá-los em figuras do passado, mas continuar a discutir, com liberdade e espírito crítico, o futuro que sonharam. Porque a Autonomia não tem donos e não é uma obra concluída: é um compromisso permanente com a democracia e com as pessoas.

Artigo publicado em dnoticias.pt a 8 de julho de 2026