A esquerda e os Heróis do Trabalho
Olá boa tarde, estão bonzinhos?
Quando cheguei a Aveiro para começar a minha jornada no ambiente universitário, eu sabia que iria sentir na pele mudanças drásticas, mas uma, tão insignificante, ressoou comigo, o “Olá, Boa Tarde! Tudo bem consigo?”.
Eu sou de Santana, um ambiente pequeno, concelho de mais ou menos 6 mil pessoas, que como qualquer área um pouco mais rural e descentralizada, é constantemente estigmatizada, vista de fora como nada mais que um ambiente agrícola e conservador. Em parte, esta visão até tem a sua verdade, realmente temos uma grande quantidade de pessoas que tudo dá à terra e dela tudo recebe, e isso com muito orgulho! O que não impede a existência de pessoas formadas (e bem formadas) em outras áreas do saber, e reconhecidas pela sua excelência, sendo um bom exemplo Ivo Rosa, primeiro Português eleito pela Assembleia Geral das Nações Unidas, cuja mãe era minha vizinha.
Mas ainda assim o que pega é a primeira parte, o estigma, a ideia preconcebida, que leva a um muito baixa presença organizada de forças de esquerda na minha terra! Uma boa prova de tal é o facto de que nas últimas autárquicas em santana a única força de esquerda presente foi o PCP, que tem candidatos em basicamente todas as freguesias e autarquias pelo país todo. Há um grande medo, irracional até, por parte da esquerda em entrar e se propor em zonas como Santana, e alargando o nosso escopo, na Madeira!
Realmente nós somos um povo de imensa tradicionalidade, somos apegados à nossa história, à nossa casa, a tudo aquilo que nos faz Madeirenses, o que não é, ainda assim, incompatível a ser de esquerda, sendo a minha existência, e a de tantos outros camaradas do Bloco, prova de tal! A esquerda não só pode, como sempre conviveu, com a ideia de fazer viver a tradição, de manter as individualidades que tornam um povo diferente dos outros! Isso não muda! O Bloco tem propostas neste sentido, propondo a criação de uma nova Secretaria, separando a Cultura do Turismo, e aproximando-a da Educação e Cidadania, destinando 1% do orçamento regional para tal, trazendo à vida ideias como a do museu do Vime e do Artesanato, na Camacha! Com isto pretendemos fazer com que a nossa cultura e tradições não sejam apenas um cartaz turístico, e passem a ser, antes de tudo, um espelho do que somos!
Mas o medo persiste, o medo de tentar conquistar este eleitorado e não conseguir, o medo de que a propaganda à qual estas zonas menos metropolitanas, e mais envelhecidas, esteja demasiado entranhada, o medo de ter mais uma derrota eleitoral…. E é este medo justificado? Ou só fruto do preconceito?
Para mim, não só a aposta nestas zonas, nas Madeiras e Santanas espalhadas pelo país, é uma aposta a ser feita, como também aquela que pode tirar a esquerda do seu buraco atual! E temos resultados eleitorais que podem nos provar isso! Nestas eleições presidências (2026), a Catarina Martins, nossa candidata, teve 2,05% dos votos a nível nacional, sendo que se olharmos a Lisboa, local onde o Bloco costuma ser forte, o resultado foi de 2,14%, e na Madeira? E em Santana? 3,8% e 4,14% respetivamente! Mas então estas terrinhas pequenas, vistas por muitos como atrasadas e conservadoras na sua totalidade, votaram mais, percentualmente, na candidata do Bloco do que os Lisboetas?! Pois é, talvez a mensagem do Bloco ressoe também com elas, talvez as pessoas que mais conhecem os seus vizinhos, se revejam em propostas que favoreçam a comunidade e não meia dúzia de donos de empresas, talvez, o problema não esteja nas pessoas de Santana, do Porto Moniz, da Camacha. Talvez esteja na falta da nossa presença!
Para um povo que valoriza tanto o “Olá bom dia! Tá bonzinho?” respondendo e conversando, vendo isto como mais que uma formalidade, mas um ato fraternidade, é importante este calor humano, esta presença, esta aposta! A nossa política não é incompatível com eles, no mais, faz todo o sentido! Porque às vezes, a política também se faz assim: um passo de cada vez, uma rua de cada vez, uma pessoa de cada vez!