Mudar tudo para que tudo fique na mesma

“Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude.”
Tancredi Falconeri, em Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

A ilusão da renovação global

Vivemos um tempo de sobressalto permanente. Guerras que se prolongam, tensões geopolíticas que escalam e crises económicas cíclicas criam uma sensação de mudança constante. No entanto, por trás do ruído das novas tecnologias e das narrativas emergentes, habita uma inquietante familiaridade: estruturas de poder que se mantêm e decisões que seguem lógicas antigas. É o paradoxo do século XXI: mudar tudo para que tudo fique na mesma.

A herança da hegemonia e o peso da história

Ao longo do último século, os Estados Unidos consolidaram-se como a peça central da arquitetura mundial. A promessa pós-Guerra Fria era de estabilidade e expansão da democracia liberal, mas a realidade revelou-se ambígua. Intervenções militares em nome da segurança ou da liberdade deixaram rastos profundos de destruição e desconfiança global. Hoje, percebe-se que muitas reformas anunciadas como transformadoras acabaram por preservar a essência das relações de poder. Após crises financeiras, prometeu-se regular mercados, mas os ciclos especulativos regressaram; após guerras desastrosas, falou-se em prudência. A retórica da renovação muitas vezes mascara a continuidade de interesses estabelecidos, onde a ganância corporativa e a lógica do complexo industrial-militar privilegiam ganhos imediatos em detrimento da estabilidade a longo prazo.

O regresso do intervencionismo: Venezuela, Cuba...

No início de 2026, esta repetição de padrões tornou-se flagrante com as ações militares na América Latina. Forças dos EUA raptaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro num ataque direto em território soberano, sob a justificativa de combate ao narcotráfico e ao terrorismo. Esta operação rompeu com normas de soberania internacional e reabriu discussões sobre a legitimidade do uso da força bruta, a exemplo do que já tinha acontecido em décadas passadas.
Os Estados Unidos realizaram cerca de 400 intervenções militares no mundo desde 1776, com metade a ocorrerem apenas entre 1950 e 2019. Na América Latina, este histórico de influência é denso: o apoio ao golpe militar no Brasil (1964) através da "Operação Brother Sam", a invasão da República Dominicana (1965), por mais de 20 mil fuzileiros, o sangrento golpe no Chile (1973), as intervenções em El Salvador, a invasão do Panamá (1989) e o envio de tropas para o Haiti (1994).
As consequências da operação no início deste ano já se expandem para além das fronteiras venezuelanas: sem o fluxo habitual de petróleo venezuelano, a ilha de Cuba enfrenta uma crise económica severa, com bloqueios a embarcações de combustível e sanções a terceiros que tentem ajudar, uma estratégia de asfixia interpretada como tentativa de forçar uma “mudança de regime” através do sofrimento humanitário.

Escalada no Médio Oriente e conflitos estratégicos

Ao mesmo tempo, a escalada militar no Médio Oriente trouxe o mundo para um limiar perigoso. A campanha de ataques aéreos coordenada entre os EUA e Israel no Irão, incluindo a eliminação de lideranças políticas e militares, desencadeou retaliações por drones e mísseis, a vários países, aumentando o risco da generalização do conflito.
O que parece ser uma resposta tática a uma suposta ameaça nuclear é, na verdade, um retorno a estratégias de poder bruto em detrimento da diplomacia. É a repetição dos padrões vistos na Guerra do Vietname (1955-1975), na Guerra do Golfo (1990-1991) e nas invasões do Afeganistão (2001-2021) e do Iraque (2003). Tal como no passado, a ação militar intensiva falha em trazer estabilidade duradoura, gerando apenas consequências humanitárias profundas e alimentando alianças adversárias. A presença na Síria (2014-presente), sob o pretexto de combater o Estado Islâmico, mas mantendo a proteção de campos de petróleo, reforça esta visão de que os recursos estratégicos comandam a pólvora.

Tensões económicas e a persistência do unilateralismo

No campo económico, instrumentos de cooperação foram transformados em armas. O uso de tarifas e sanções para atingir países fora de alianças tradicionais tornou-se comum. Estas “chantagens de taxas” repetem um padrão que enfraquece sistemas económicos e empurra nações para relações de dependência ou blocos rivais.
O que une todos estes casos, de Granada (1983) e Somália (1992) à Líbia (2011) e às tensões atuais na Europa Oriental, e agora ao Irão, é a permanência de lógicas que privilegiam interesses hegemónicos sobre normas multilaterais. Mesmo quando se proclama o fim de uma era, a prática política continua a refletir rivalidades que se arrastam há décadas. O imperialismo moderno não se apresenta sempre como colonização formal, mas como uma influência económica, militar e cultural difusa e agressiva. A intervenção militar tem sido usada para assegurar recursos estratégicos e conter adversários, raramente resultando em estabilidade duradoura.

Riscos e lições para o futuro

As repercussões deste ciclo são múltiplas: aumento da polarização global, insegurança alimentar e a erosão da confiança nas instituições. Se o mundo permanecer preso a estas lógicas, a promessa de um futuro mais justo continuará a escapar-se.
“Mudar tudo para que tudo fique na mesma” é um aviso sobre a tentação de aceitar mudanças cosméticas. A história mostra que decisões guiadas por ganância, autoritarismo ou ambição imperial têm custos elevados. O desafio é aprender com estes precedentes e exigir uma reforma institucional efetiva e uma redistribuição real de poder, antes que os riscos se tornem irreversíveis.

 

A diferença entre a retórica do "Presidente da Paz" e a realidade operacional no terreno.

1. Guerras "terminadas" (segundo Donald Trump)
Donald Trump tem afirmado recorrentemente nas suas redes sociais e intervenções públicas que é o único líder capaz de parar conflitos através da "arte do negócio" e de ameaças tarifárias.
Em Janeiro de 2026, Trump afirmou ter terminado 8 guerras no seu primeiro ano de mandato. A lista da Casa Branca inclui mediações em conflitos de diferentes intensidades, como entre Israel e Irão (a trégua inicial de 2025), Paquistão e Índia, Sérvia e Kosovo, e tensões entre a Etiópia e o Egipto.
Analistas e “fact-checkers” referem que muitos destes "fins de guerra" foram, na verdade, cessar-fogos temporários ou acordos económicos que não resolveram as tensões profundas. Por exemplo, a guerra com o Irão, que ele disse ter resolvido em 2025, escalou violentamente para a operação militar de larga escala que decorre agora em março de 2026.
2. Intervenções militares no atual governo (2025-2026)
Apesar da narrativa de "fim das guerras sem fim", o segundo mandato tem sido marcado por um aumento drástico de intervenções diretas.

Só em 2025, os EUA realizaram pelo menos 626 ataques aéreos (superando o total do mandato anterior de Biden).
Venezuela (Operação Absolute Resolve): o ataque direto em Caracas em Janeiro deste ano para capturar Nicolás Maduro;
Irão (Operação Epic Fury; será só coincidência que as iniciais sejam iguais a Epstein Files): a ofensiva iniciada a 28 de Fevereiro de 2026 em conjunto com Israel, que atingiu centros de comando em Teerão;
Iémen (Operação Rough Rider): uma campanha intensiva contra os rebeldes Houthi no Mar Vermelho iniciada em Março de 2025;
Somália e Nigéria: expansão das operações contra o Al-Shabaab e o ISIS, com mais de 120 operações registadas só na Somália durante o ano passado;

Síria (Operação Hawkeye Strike): ataques contra mais de 70 alvos do ISIS em Dezembro de 2025;

Ontem, 3 de março de 2026, o Equador tornou-se a mais recente frente da política externa de intervenção direta da administração Trump na América Latina.

Contexto político e a aliança Noboa-Trump

Esta intervenção não foi uma "invasão" unilateral como a da Venezuela, mas sim um desdobramento de um acordo estreito entre os dois presidentes.
O presidente Noboa descreveu os eventos de ontem como o início de uma "nova fase" no combate ao narcoterrorismo, tendo autorizado os EUA a transmitir ordens diretamente à Força Aérea Equatoriana e a utilizar o espaço aéreo nacional para intercetar atividades suspeitas.
Para acompanhar a ofensiva, foi anunciado um novo toque de recolher em quatro das províncias mais violentas (Guayas, Los Ríos, Santo Domingo e El Oro) entre 15 e 30 de março.

Reação internacional e críticas

Tal como as outras, esta ação está a gerar uma polarização intensa: países como o Panamá e o Paraguai saudaram a "mão pesada" contra os cartéis; opositores e observadores de direitos humanos alertam para o "outro lado da militarização", citando relatos de execuções extrajudiciais e abusos cometidos sob o pretexto do combate ao terrorismo.
Muitos acusam Trump de usar estas operações como "distração" política ou para consolidar o controlo sobre recursos estratégicos na região.
Este evento no Equador confirma: em 2026, a diplomacia tradicional foi substituída pelo uso direto e agressivo da força militar para assegurar a ordem (ou a hegemonia) no hemisfério.
Mudar tudo para que tudo fique na mesma!